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Carlos QueirogaPsicólogo, CRP 13/12362

Guia 3 de 4

Crenças, esquemas e estratégias compensatórias

O que está por baixo dos pensamentos automáticos: as crenças que aprendemos sobre nós, os outros e o mundo, as regras que criamos para conviver com elas, e o preço dessas regras.

Por Carlos Queiroga, psicólogo 18 min de leitura Seta descendente, continuum e ficha de conceituação

Para começar

As lentes que usamos sem perceber

No guia anterior, você viu que entre uma situação e uma emoção existe um pensamento automático. Mas por que os pensamentos de uma pessoa tendem sempre para o mesmo lado? Por que alguém interpreta quase tudo como rejeição, e outra pessoa quase tudo como fracasso?

A resposta da TCC é que, por baixo dos pensamentos automáticos, existem crenças: ideias profundas sobre quem somos, como os outros são e como o mundo funciona. Elas funcionam como lentes. A gente não olha para elas; olha através delas, e por isso nem percebe que estão ali.

Uma crença não é uma verdade sobre você. É uma conclusão que você tirou, em algum momento da vida, com as informações que tinha naquele momento.

Um cuidado com este guia. Ele fala de temas profundos, e ler sobre eles pode mexer com você. Se algo aqui tocar em lembranças difíceis, tudo bem parar, respirar, e trazer isso para a sessão. Identificar as próprias crenças é um trabalho para fazer com calma, e acompanhado.

Três camadas

Da superfície ao fundo: três níveis de pensamento

Judith Beck descreve os pensamentos em três camadas. As de cima são mais fáceis de perceber e de mudar; as de baixo são mais antigas, mais gerais e mais estáveis. Toque em cada nível para ver o exemplo de uma mesma pessoa.

Repare como as camadas se encaixam: porque a pessoa acredita que é incapaz, ela cria a regra de nunca pedir ajuda, para ninguém descobrir. E porque segue essa regra, diante de cada tarefa nova surge o pensamento "não vou conseguir", sem ninguém por perto para mostrar o contrário.

Crenças centrais

Três grandes temas

As crenças centrais negativas sobre si mesmo costumam cair em três grandes grupos. A maioria das pessoas se reconhece mais em um deles, mas é comum ter crenças em mais de um.

Desamparo

Sobre capacidade, força e controle.

  • "Sou incapaz."
  • "Sou fraco."
  • "Não dou conta."
  • "Sou vulnerável, qualquer coisa me derruba."
  • "Sou um fracasso."

Desamor

Sobre ser amado e pertencer.

  • "Ninguém gosta de mim."
  • "Não sou digno de amor."
  • "Vou ser abandonado."
  • "Sou diferente, não me encaixo."
  • "Sou indesejável."

Desvalor

Sobre valor e merecimento.

  • "Não tenho valor."
  • "Sou mau."
  • "Não mereço coisas boas."
  • "Sou um peso para os outros."
  • "Sou defeituoso."

Também existem crenças sobre os outros e sobre o mundo

"As pessoas não são confiáveis." "Os outros vão se aproveitar de mim." "O mundo é perigoso." Elas se combinam com as crenças sobre si: quem acredita ser vulnerável num mundo perigoso vive em alerta.

De onde vêm

Crenças se formam principalmente na infância e na adolescência, a partir do temperamento de cada um e das experiências que viveu: como era tratado, o que ouvia, o que acontecia quando errava, se era cuidado quando sofria. Para uma criança, a conclusão "o problema sou eu" muitas vezes era a única explicação disponível. Ela fazia sentido naquele contexto, mesmo que hoje não faça mais.

Por que elas parecem tão verdadeiras

Uma crença central funciona como um filtro: deixa entrar com facilidade tudo o que a confirma, e barra, distorce ou desvaloriza o que a contradiz. Um erro vira prova. Um elogio vira "foi educação". Com os anos, a crença parece ter muitas evidências, porque as contrárias nunca foram guardadas.

Crenças ficam mais ou menos ativas. Em fases boas, a crença pode passar quase despercebida. Em momentos de estresse, cansaço, perda ou humor baixo, ela "acende", e os pensamentos automáticos ficam mais frequentes e mais convincentes.

Esquemas

Quando a crença é um padrão inteiro

O psicólogo Jeffrey Young, criador da Terapia do Esquema, ampliou a ideia de crença central. Para ele, um esquema não é só uma frase: é um padrão amplo, formado por lembranças, emoções, sensações no corpo e pensamentos, que começa na infância ou na adolescência, se repete ao longo da vida e interfere nos relacionamentos e nas escolhas.

Na visão de Young, os esquemas nascem principalmente quando necessidades emocionais básicas da criança não foram atendidas de forma suficiente:

  1. Vínculos segurosSegurança, estabilidade, cuidado e aceitação.
  2. Autonomia e competênciaPoder explorar, errar, aprender e desenvolver um senso de quem se é.
  3. Liberdade de expressãoPoder mostrar necessidades e emoções e ser levado a sério.
  4. Espontaneidade e lazerPoder brincar, descansar e ter prazer sem culpa.
  5. Limites realistasAprender autocontrole e a considerar os outros.

Young descreveu 18 esquemas, organizados em cinco grandes áreas. Toque em cada área para conhecer os esquemas.

Desconexão e rejeição

Abandono/Instabilidade: a expectativa de que as pessoas importantes vão embora ou não vão estar lá.

Desconfiança/Abuso: a expectativa de ser magoado, enganado ou usado pelos outros.

Privação emocional: a sensação de que ninguém vai oferecer cuidado, compreensão ou afeto suficientes.

Defectividade/Vergonha: a sensação de ser falho, inferior ou indigno de amor, e de que isso será descoberto.

Isolamento social/Alienação: a sensação de ser diferente e de não pertencer a nenhum grupo.

Autonomia e desempenho prejudicados

Dependência/Incompetência: a crença de não conseguir lidar com a vida sem ajuda constante.

Vulnerabilidade ao dano ou à doença: o medo exagerado de que uma catástrofe vai acontecer a qualquer momento.

Emaranhamento/Self subdesenvolvido: envolvimento tão grande com alguém próximo que falta uma identidade própria.

Fracasso: a crença de que fracassou, ou vai fracassar, e de que é menos capaz que os outros.

Limites prejudicados

Merecimento/Grandiosidade: a crença de ser especial e de não precisar seguir as regras que valem para os outros.

Autocontrole/Autodisciplina insuficientes: dificuldade de tolerar frustração e de manter o esforço para alcançar objetivos.

Orientação para o outro

Subjugação: abrir mão das próprias vontades para evitar raiva, rejeição ou retaliação.

Autossacrifício: colocar sempre as necessidades dos outros na frente, às custas de si.

Busca de aprovação/reconhecimento: valor pessoal dependente da aprovação e da admiração dos outros.

Supervigilância e inibição

Negativismo/Pessimismo: foco constante no que pode dar errado.

Inibição emocional: segurar emoções e espontaneidade para evitar desaprovação ou perda de controle.

Padrões inflexíveis/Postura crítica exagerada: a crença de que é preciso atingir padrões muito altos, o tempo todo.

Postura punitiva: a crença de que erros, seus ou dos outros, merecem punição dura.

Não é para se autodiagnosticar. Quase todo mundo se reconhece um pouco em vários esquemas ao ler a lista. Identificar quais são os seus, e com que força, é um trabalho feito em sessão, com conversa, história de vida e, quando útil, questionários específicos.

Crenças intermediárias

As regras que criamos para conviver com a crença

Ninguém vive o dia inteiro sentindo "eu sou incapaz" ou "ninguém gosta de mim". Para conseguir funcionar, a mente cria regras de sobrevivência, quase sempre no formato "se... então...". Elas prometem proteção: se eu seguir a regra, a crença não se confirma.

Desamparo

Crença central

"Eu sou incapaz."

para conviver com isso, cria-se a regra
Pressuposto

"Se eu fizer tudo perfeito e me preparar ao extremo, ninguém vai perceber que eu não sou capaz."

que leva à estratégia
Estratégia compensatória

Perfeccionismo. Revisar mil vezes, trabalhar até tarde, nunca entregar nada "ainda não pronto".

Estratégias compensatórias

O que protege no curto prazo, e mantém no longo

Estratégias compensatórias são os comportamentos que a pessoa desenvolve para não sentir a dor da crença central. Muitas vezes, elas foram a melhor solução possível em algum momento da vida, e por isso merecem respeito, não vergonha.

Em si, a maioria delas é comum e até útil: todo mundo se prepara, agrada, evita algumas coisas. O problema aparece quando a estratégia é rígida (usada sempre, em qualquer situação), excessiva (cobra um preço alto), e principalmente quando impede de testar a crença. Quem nunca entrega nada imperfeito nunca descobre que seria aceito mesmo assim.

Evitar desafios para não arriscar falhar.

Perfeccionismo e preparo em excesso.

Buscar aprovação e confirmação o tempo todo.

Controlar situações e pessoas para não ser surpreendido.

Nunca pedir ajuda nem mostrar fragilidade.

Se isolar para não ser rejeitado.

Três estilos de enfrentamento

A mesma crença, três jeitos de reagir

Jeffrey Young observou que as pessoas lidam com um esquema de três formas principais. Todas trazem algum alívio, e todas, sem querer, mantêm o esquema vivo. Veja a mesma crença, "eu não sou bom o bastante", nos três estilos.

Resignação: se render ao esquema

Agir como se a crença fosse verdade. A pessoa aceita menos, escolhe situações que confirmam o que ela já acredita, e nem tenta mudar.

No trabalho: aceita um cargo abaixo da própria capacidade e não se candidata à promoção.
Nas relações: escolhe parceiros críticos, que confirmam que ela nunca é suficiente.

Por que mantém: a vida vai sendo organizada em volta da crença, e ela parece cada vez mais verdadeira.

A maioria das pessoas usa os três estilos, em momentos diferentes. Reconhecer qual aparece em cada situação já é um passo grande: é o momento em que a pessoa deixa de ser o esquema e passa a observar o esquema.

Interativo

Seta descendente: do pensamento à crença

A seta descendente é uma técnica usada em sessão para chegar à crença que está por baixo de um pensamento automático. Em vez de discutir se o pensamento é verdadeiro, a gente pergunta: "e se fosse, o que isso significaria?", e repete, descendo camada por camada.

Modo:
Como saber que chegou lá. A crença central costuma ser uma frase curta, absoluta e sobre você ("eu sou..."), e costuma vir com uma emoção forte. Se a resposta começou a se repetir, ou ficou pesada demais, pare. Isso é material para a sessão, e não precisa ser resolvido sozinho.

Mudança

Crenças mudam. Devagar, e com prática.

Uma crença que se formou em anos não se desfaz numa conversa. Mas ela muda, e muda de forma mais duradoura quando o trabalho combina entender, examinar e agir. Em terapia, esse processo costuma seguir alguns passos:

  1. NomearReconhecer a crença como uma ideia, e não como um fato. "Lá vem a minha crença de incapacidade."
  2. Entender a origemVer de onde ela veio, e por que fazia sentido naquele momento da vida.
  3. Examinar a vida inteiraBuscar as evidências que o filtro deixou de fora, desde a infância até hoje.
  4. Construir uma crença alternativaMais realista e mais gentil. Não "sou perfeito", e sim "sou capaz em muita coisa, e tenho dificuldade em algumas".
  5. Testar na práticaExperimentos: agir aos poucos de acordo com a nova crença, e diminuir as estratégias compensatórias, para ver o que acontece de verdade.
  6. Registrar os dados novosAnotar, todos os dias, pequenas evidências a favor da crença nova. O filtro antigo não vai fazer isso por você.

Experimente: o continuum

Crenças centrais costumam ser tudo ou nada: ou sou um sucesso, ou um fracasso. O continuum ajuda a ver os tons intermediários. Pense na pior pessoa possível nessa característica como 0, e na melhor como 100. Onde você realmente está?

Numa escala de 0 a 100, quanto sou capaz?

50
0: a pessoa menos capaz que existe100: a mais capaz

O objetivo não é trocar uma crença negativa por uma positiva. É trocar uma crença rígida por uma crença flexível, que caiba a sua vida inteira.

Ficha

Mapa das minhas crenças

Este mapa é uma versão simplificada da conceituação cognitiva, o "desenho" que terapeuta e paciente montam juntos para entender o caso. Preencha o que conseguir. Os campos em branco são ótimos pontos de partida para a sessão.

Mapa das minhas crenças

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Carlos Queiroga
Carlos Queiroga

Psicólogo, CRP 13/12362. Terapia Cognitivo-Comportamental, avaliação neuropsicológica e psicologia baseada em evidências.

Este guia é material de psicoeducação. Ele ajuda a entender o que acontece em terapia, mas não substitui avaliação nem acompanhamento profissional. Em situação de crise, ligue 188 (CVV) ou procure o serviço de saúde mais próximo.

Referências

  1. Beck, J. S. (2022). Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática (3ª ed.). Artmed.
  2. Beck, A. T. (1976). Cognitive therapy and the emotional disorders. International Universities Press.
  3. Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Artmed.
  4. Padesky, C. A. (1994). Schema change processes in cognitive therapy. Clinical Psychology & Psychotherapy, 1(5), 267–278.
  5. Greenberger, D., & Padesky, C. A. (2017). A mente vencendo o humor (2ª ed.). Artmed.
  6. Burns, D. D. (1980). Feeling good: The new mood therapy. William Morrow (técnica da seta descendente).
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