Para começar
As lentes que usamos sem perceber
No guia anterior, você viu que entre uma situação e uma emoção existe um pensamento automático. Mas por que os pensamentos de uma pessoa tendem sempre para o mesmo lado? Por que alguém interpreta quase tudo como rejeição, e outra pessoa quase tudo como fracasso?
A resposta da TCC é que, por baixo dos pensamentos automáticos, existem crenças: ideias profundas sobre quem somos, como os outros são e como o mundo funciona. Elas funcionam como lentes. A gente não olha para elas; olha através delas, e por isso nem percebe que estão ali.
Uma crença não é uma verdade sobre você. É uma conclusão que você tirou, em algum momento da vida, com as informações que tinha naquele momento.
Três camadas
Da superfície ao fundo: três níveis de pensamento
Judith Beck descreve os pensamentos em três camadas. As de cima são mais fáceis de perceber e de mudar; as de baixo são mais antigas, mais gerais e mais estáveis. Toque em cada nível para ver o exemplo de uma mesma pessoa.
Repare como as camadas se encaixam: porque a pessoa acredita que é incapaz, ela cria a regra de nunca pedir ajuda, para ninguém descobrir. E porque segue essa regra, diante de cada tarefa nova surge o pensamento "não vou conseguir", sem ninguém por perto para mostrar o contrário.
Crenças centrais
Três grandes temas
As crenças centrais negativas sobre si mesmo costumam cair em três grandes grupos. A maioria das pessoas se reconhece mais em um deles, mas é comum ter crenças em mais de um.
Desamparo
Sobre capacidade, força e controle.
- "Sou incapaz."
- "Sou fraco."
- "Não dou conta."
- "Sou vulnerável, qualquer coisa me derruba."
- "Sou um fracasso."
Desamor
Sobre ser amado e pertencer.
- "Ninguém gosta de mim."
- "Não sou digno de amor."
- "Vou ser abandonado."
- "Sou diferente, não me encaixo."
- "Sou indesejável."
Desvalor
Sobre valor e merecimento.
- "Não tenho valor."
- "Sou mau."
- "Não mereço coisas boas."
- "Sou um peso para os outros."
- "Sou defeituoso."
Também existem crenças sobre os outros e sobre o mundo
"As pessoas não são confiáveis." "Os outros vão se aproveitar de mim." "O mundo é perigoso." Elas se combinam com as crenças sobre si: quem acredita ser vulnerável num mundo perigoso vive em alerta.
De onde vêm
Crenças se formam principalmente na infância e na adolescência, a partir do temperamento de cada um e das experiências que viveu: como era tratado, o que ouvia, o que acontecia quando errava, se era cuidado quando sofria. Para uma criança, a conclusão "o problema sou eu" muitas vezes era a única explicação disponível. Ela fazia sentido naquele contexto, mesmo que hoje não faça mais.
Por que elas parecem tão verdadeiras
Uma crença central funciona como um filtro: deixa entrar com facilidade tudo o que a confirma, e barra, distorce ou desvaloriza o que a contradiz. Um erro vira prova. Um elogio vira "foi educação". Com os anos, a crença parece ter muitas evidências, porque as contrárias nunca foram guardadas.
Esquemas
Quando a crença é um padrão inteiro
O psicólogo Jeffrey Young, criador da Terapia do Esquema, ampliou a ideia de crença central. Para ele, um esquema não é só uma frase: é um padrão amplo, formado por lembranças, emoções, sensações no corpo e pensamentos, que começa na infância ou na adolescência, se repete ao longo da vida e interfere nos relacionamentos e nas escolhas.
Na visão de Young, os esquemas nascem principalmente quando necessidades emocionais básicas da criança não foram atendidas de forma suficiente:
- Vínculos segurosSegurança, estabilidade, cuidado e aceitação.
- Autonomia e competênciaPoder explorar, errar, aprender e desenvolver um senso de quem se é.
- Liberdade de expressãoPoder mostrar necessidades e emoções e ser levado a sério.
- Espontaneidade e lazerPoder brincar, descansar e ter prazer sem culpa.
- Limites realistasAprender autocontrole e a considerar os outros.
Young descreveu 18 esquemas, organizados em cinco grandes áreas. Toque em cada área para conhecer os esquemas.
Desconexão e rejeição
Abandono/Instabilidade: a expectativa de que as pessoas importantes vão embora ou não vão estar lá.
Desconfiança/Abuso: a expectativa de ser magoado, enganado ou usado pelos outros.
Privação emocional: a sensação de que ninguém vai oferecer cuidado, compreensão ou afeto suficientes.
Defectividade/Vergonha: a sensação de ser falho, inferior ou indigno de amor, e de que isso será descoberto.
Isolamento social/Alienação: a sensação de ser diferente e de não pertencer a nenhum grupo.
Autonomia e desempenho prejudicados
Dependência/Incompetência: a crença de não conseguir lidar com a vida sem ajuda constante.
Vulnerabilidade ao dano ou à doença: o medo exagerado de que uma catástrofe vai acontecer a qualquer momento.
Emaranhamento/Self subdesenvolvido: envolvimento tão grande com alguém próximo que falta uma identidade própria.
Fracasso: a crença de que fracassou, ou vai fracassar, e de que é menos capaz que os outros.
Limites prejudicados
Merecimento/Grandiosidade: a crença de ser especial e de não precisar seguir as regras que valem para os outros.
Autocontrole/Autodisciplina insuficientes: dificuldade de tolerar frustração e de manter o esforço para alcançar objetivos.
Orientação para o outro
Subjugação: abrir mão das próprias vontades para evitar raiva, rejeição ou retaliação.
Autossacrifício: colocar sempre as necessidades dos outros na frente, às custas de si.
Busca de aprovação/reconhecimento: valor pessoal dependente da aprovação e da admiração dos outros.
Supervigilância e inibição
Negativismo/Pessimismo: foco constante no que pode dar errado.
Inibição emocional: segurar emoções e espontaneidade para evitar desaprovação ou perda de controle.
Padrões inflexíveis/Postura crítica exagerada: a crença de que é preciso atingir padrões muito altos, o tempo todo.
Postura punitiva: a crença de que erros, seus ou dos outros, merecem punição dura.
Crenças intermediárias
As regras que criamos para conviver com a crença
Ninguém vive o dia inteiro sentindo "eu sou incapaz" ou "ninguém gosta de mim". Para conseguir funcionar, a mente cria regras de sobrevivência, quase sempre no formato "se... então...". Elas prometem proteção: se eu seguir a regra, a crença não se confirma.
Desamparo
"Eu sou incapaz."
"Se eu fizer tudo perfeito e me preparar ao extremo, ninguém vai perceber que eu não sou capaz."
Perfeccionismo. Revisar mil vezes, trabalhar até tarde, nunca entregar nada "ainda não pronto".
Desamor
"Ninguém gosta de mim de verdade."
"Se eu agradar todo mundo e nunca disser não, as pessoas vão ficar comigo."
Agradar sempre. Aceitar tudo, esconder o que sente, colocar os outros sempre na frente.
Desvalor
"Eu não tenho valor."
"Se eu não pedir nada e não der trabalho, pelo menos não vou incomodar ninguém."
Se apagar. Não pedir ajuda, não se colocar, aceitar menos do que precisa.
Estratégias compensatórias
O que protege no curto prazo, e mantém no longo
Estratégias compensatórias são os comportamentos que a pessoa desenvolve para não sentir a dor da crença central. Muitas vezes, elas foram a melhor solução possível em algum momento da vida, e por isso merecem respeito, não vergonha.
Em si, a maioria delas é comum e até útil: todo mundo se prepara, agrada, evita algumas coisas. O problema aparece quando a estratégia é rígida (usada sempre, em qualquer situação), excessiva (cobra um preço alto), e principalmente quando impede de testar a crença. Quem nunca entrega nada imperfeito nunca descobre que seria aceito mesmo assim.
Evitar desafios para não arriscar falhar.
Perfeccionismo e preparo em excesso.
Buscar aprovação e confirmação o tempo todo.
Controlar situações e pessoas para não ser surpreendido.
Nunca pedir ajuda nem mostrar fragilidade.
Se isolar para não ser rejeitado.
Três estilos de enfrentamento
A mesma crença, três jeitos de reagir
Jeffrey Young observou que as pessoas lidam com um esquema de três formas principais. Todas trazem algum alívio, e todas, sem querer, mantêm o esquema vivo. Veja a mesma crença, "eu não sou bom o bastante", nos três estilos.
Resignação: se render ao esquema
Agir como se a crença fosse verdade. A pessoa aceita menos, escolhe situações que confirmam o que ela já acredita, e nem tenta mudar.
No trabalho: aceita um cargo abaixo da própria capacidade e não se candidata à promoção.
Nas relações: escolhe parceiros críticos, que confirmam que ela nunca é suficiente.
Por que mantém: a vida vai sendo organizada em volta da crença, e ela parece cada vez mais verdadeira.
Evitação: fugir do que ativa o esquema
Organizar a vida para nunca entrar em contato com a crença, nem com a dor que ela traz. Fugir de situações, de assuntos e das próprias emoções.
No trabalho: adia projetos importantes, não se expõe em reuniões, não pede retorno.
Nas relações: não se aproxima demais de ninguém. E, nos dias difíceis, anestesia a dor com telas, comida, bebida ou excesso de ocupação.
Por que mantém: sem se expor, nunca aparece a prova de que a crença estava errada.
Hipercompensação: lutar contra, com exagero
Fazer o oposto da crença de forma extrema. Por fora, parece força e segurança; por dentro, é a mesma crença, só que em guerra.
No trabalho: perfeccionismo, jornadas sem fim, necessidade de ser o melhor em tudo.
Nas relações: crítica aos outros, dificuldade de admitir erros, necessidade de estar sempre certo.
Por que mantém: o valor passa a depender de um desempenho impossível de sustentar, e qualquer falha reacende a crença com força total.
A maioria das pessoas usa os três estilos, em momentos diferentes. Reconhecer qual aparece em cada situação já é um passo grande: é o momento em que a pessoa deixa de ser o esquema e passa a observar o esquema.
Interativo
Seta descendente: do pensamento à crença
A seta descendente é uma técnica usada em sessão para chegar à crença que está por baixo de um pensamento automático. Em vez de discutir se o pensamento é verdadeiro, a gente pergunta: "e se fosse, o que isso significaria?", e repete, descendo camada por camada.
Mudança
Crenças mudam. Devagar, e com prática.
Uma crença que se formou em anos não se desfaz numa conversa. Mas ela muda, e muda de forma mais duradoura quando o trabalho combina entender, examinar e agir. Em terapia, esse processo costuma seguir alguns passos:
- NomearReconhecer a crença como uma ideia, e não como um fato. "Lá vem a minha crença de incapacidade."
- Entender a origemVer de onde ela veio, e por que fazia sentido naquele momento da vida.
- Examinar a vida inteiraBuscar as evidências que o filtro deixou de fora, desde a infância até hoje.
- Construir uma crença alternativaMais realista e mais gentil. Não "sou perfeito", e sim "sou capaz em muita coisa, e tenho dificuldade em algumas".
- Testar na práticaExperimentos: agir aos poucos de acordo com a nova crença, e diminuir as estratégias compensatórias, para ver o que acontece de verdade.
- Registrar os dados novosAnotar, todos os dias, pequenas evidências a favor da crença nova. O filtro antigo não vai fazer isso por você.
Experimente: o continuum
Crenças centrais costumam ser tudo ou nada: ou sou um sucesso, ou um fracasso. O continuum ajuda a ver os tons intermediários. Pense na pior pessoa possível nessa característica como 0, e na melhor como 100. Onde você realmente está?
Numa escala de 0 a 100, quanto sou capaz?
O objetivo não é trocar uma crença negativa por uma positiva. É trocar uma crença rígida por uma crença flexível, que caiba a sua vida inteira.
Ficha
Mapa das minhas crenças
Este mapa é uma versão simplificada da conceituação cognitiva, o "desenho" que terapeuta e paciente montam juntos para entender o caso. Preencha o que conseguir. Os campos em branco são ótimos pontos de partida para a sessão.
Minha ficha
Salvo neste aparelho ✓Use a seta descendente acima, se quiser.
No formato "Se eu..., então...".
No celular, escolha "Salvar como PDF" na tela de impressão. Nada do que você escreve é enviado para a internet.
Psicólogo, CRP 13/12362. Terapia Cognitivo-Comportamental, avaliação neuropsicológica e psicologia baseada em evidências.
Este guia é material de psicoeducação. Ele ajuda a entender o que acontece em terapia, mas não substitui avaliação nem acompanhamento profissional. Em situação de crise, ligue 188 (CVV) ou procure o serviço de saúde mais próximo.
Referências
- Beck, J. S. (2022). Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática (3ª ed.). Artmed.
- Beck, A. T. (1976). Cognitive therapy and the emotional disorders. International Universities Press.
- Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Artmed.
- Padesky, C. A. (1994). Schema change processes in cognitive therapy. Clinical Psychology & Psychotherapy, 1(5), 267–278.
- Greenberger, D., & Padesky, C. A. (2017). A mente vencendo o humor (2ª ed.). Artmed.
- Burns, D. D. (1980). Feeling good: The new mood therapy. William Morrow (técnica da seta descendente).